A sala onde o dinamarquês Knud Harald Lykke Gregersen, o lendário Lucky Tattoo, trabalhava em Suarão, bairro de Itanhaém, continua lá, quase intacta. Na parede, fotos, desenhos e um quadro feitos pelo próprio mantém viva a memória daquele que foi o primeiro tatuador profissional do Brasil. Durante muito tempo, ele dividiu o seu tempo entre o cais de Santos, onde tinha o estúdio que o tornou célebre nos anos 60 e 70, e essa casa ateliê no município do Litoral Sul de São Paulo.
Hoje, 27 anos após a morte de Lucky, quem cuida dessa relíquia da história da tatuagem no Brasil é o filho do mestre e também tatuador, George Frederik Gregersen, o Fred, de 41 anos. “Nós éramos muito apegados. A partir dos nove, dez anos eu ia para o estúdio dele no cais de Santos e ficava copiando os desenhos que decoravam o ateliê. Aos poucos ele foi me ensinando algumas coisas como soldar uma agulha, por exemplo”, recorda.
Nesse período, o ainda menino já começou a dar os primeiros passos na arte da tattoo, ajudado pelo pai: “Alguns clientes apareciam querendo tatuar, mas não tinham dinheiro. O meu pai viu aí uma chance para eu começar. O primeiro que tatuei foi um surfista do Balneário Gaivotas, em Peruíbe. Os meus primeiros trabalhos foram meias-luas, raios, estrelas e dragões, que viraram um tipo de moda depois que o meu pai tatuou o Petit (o surfista José Artur Machado, o famoso ´Menino do Rio`)”.
O começo não foi fácil. As máquinas, produzidas pelo seu tio Uli Gregersen, tatuador na região do cais do Porto de Copenhague, capital da Dinamarca, eram pesadas. Em certos momentos, quando Fred estava trabalhando, Lucky percebia as dificuldades do filho, interferia e completava o trabalho. Não foi só Fred que seguiu os passos do pai. Sua irmã Erna (que ficou mais conhecida com o abrasileirado nome de Ana) foi a primeira tatuadora profissional de todo o Litoral Paulista, onde mantinha um estúdio na cidade de Santos, mais exatamente na Galeria A.D. Moreira, por volta dos anos 80, onde com o seu pioneirismo de se instalar em uma área nobre da cidade, além de despertar a curiosidade de muitos, estranhos àquele movimento, foi responsável pelo início da quebra de preconceitos da sociedade com relação a tatuagem. Ela é considerada uma das pioneiras na tatuagem no Brasil. Infelizmente, Ana nos deixou há cerca de dois anos e muitos ainda relembram e reconhecem o seu talento e o seu pioneirismo na arte da tatuagem.
Tatuagens para proteção
Fred Gregersen recorda do cotidiano do estúdio que Lucky mantinha no cais santista: “Era um entra e saí. Ele tatuava no fundo da loja e na frente vendia souvenirs, lembranças recolhidas nos 42 países que percorreu antes de se fixar no Brasil. Eu me recordo desse tempo dele tatuando muitos caminhoneiros, que marcavam o corpo como imagens de Nossa Senhora Aparecida, Jesus Cristo e cruzes para proteção”.
Aos dez anos, ele também queria ter o corpo marcado, mas o pai não deixava. Lucky dizia que o filho não agüentaria a dor. “As máquinas eram mais rústicas, com uma voltagem maior que as de hoje”. Restou ao garoto maravilhar-se com as águias, tubarões e caravelas que o pai tatuava em quem passava pelo estúdio.
Tatuar-se, antes de tudo, era um ato de coragem e resistência. “Certa vez veio ao estúdio um garimpeiro lá do Mato Grosso. Ele ia fazer um painel nas costas com uma águia carregando uma cobra enrolada e um dragão também. Na época, pra terminar todo o desenho, meu pai demorou umas quatro, cinco horas, trabalhando direto. Para amenizar a dor, o cara tomou uns dois litros de whisky, Hoje o pessoal não termina em quatro horas um painel daquele. Faz os traços e mais alguns detalhes. Ele fechou o desenho”. Não havia, também, as pomadas cicatrizantes. Lucky indicava passar merthiolate mesmo.
Além do “Menino do Rio”, Fred recorda que outros famosos passaram pelo estúdio de Lucky, como o cantor Evandro Mesquita, que tem uma águia, e o surfista santista Picuruta Salazar, que fez uma âncora com cordas. O filho do mestre dinamarquês também confirma a lenda de que o pai não deixou discípulos. “Meu pai até deu uns toques para o Alemão, de Santo André, mas não muitos, ele era muito fechado”. Lucky também era artista plástico. Seus quadros estão por aí na mão de colecionadores e Alemão, da Tattoo Shopping, tem a honra de possuir uma dessas raríssimas peças. Em 1978, ele esteve em Copenhague, sua terra natal, e fez uma exposição com as obras.
Fred Gregersen estará na 2ª Tattoo Mix Convention para receber uma homenagem em nome pai e realizar um desejo: a de que Lucky Tattoo seja lembrado como o artista que introduziu a tatuagem profissional no Brasil.
Saiba mais da história de Lucky Tattoo neste link








Você é um artista premiado e reconhecido nacionalmente. O que mudou em relação a imagem da tattoo no Brasil nos últimos anos? Melhorou?




Como você começou a sua carreira e as suas principais influências?
Você costuma dizer que antes era considerado marginal e hoje é considerado um artista. O que mudou em relação a imagem que as pessoas têm da tatuagem?
O estúdio Body Play, de São Vicente, é mais uma das atrações da 2ª Tattoo Mix Convention, que acontece em Santos, a cidade natal da tatuagem no Brasil, entre os dias 14 e 16 de maio de 2010, no Clube Saldanha da Gama, na Ponta da Praia. O evento reunirá, durante três dias, artistas consagrados como o lendário tatuador norte-americano Gill Montie e brasileiros como Beicinho, Mário Vitor, Beto Satã, Daillier e Danielle Perrone.




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